Pormenores Sem Importancia

"Para saber bem as coisas é preciso conhecê-las em pormenor; e, como os pormenores são em número quase infinito, os nossos conhecimentos são sempre superficiais e imperfeitos" François de la Rochefoucauld

quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

Pele

Posso ser óbvia, deixar-me de filosofias e falar apenas de todas as cicatrizes que deixaste marcadas na minha pele? De todos os momentos que apenas existiram para ti e para mim?
Falo-te da sensação de ausência e vazio, desde que a tua alma de descolou da minha, da minha pele permanentemente irritada e com um forte edema desde que os teus dedos a percorrem, um a um, sem demoras, dos meus olhos que se perderam dos teus para, agora, contemplarem apenas o vazio e o silêncio, e das palavras… As palavras inseguras e inquietas que voaram e emigraram…
A minha pele é, certamente, o teu mapa… O mapa que podes tactear de olhos fechados, como um cego lê um romance em Braille (afinal o amor não é cego, é mudo)… Toca-me e lê, lê todas as linhas da nossa história e, por favor, ignora os pontos finais e todas as reticências… Também não te surpreendas quando as linhas acabarem… As cicatrizes que ainda não existem são todas aquelas que vais marcar em mim, são aquelas que vão espelhar de forma gritante a tua, a minha e a nossa essência…
As cicatrizes são muito mais do que marcas, são histórias, passados, recordações e lições de vida... Histórias de chegadas e de partidas, de desencontros e reencontros, de inicios e de fins.
As grandes histórias de amor não tem um final feliz, simplesmente porque não têm fim…

terça-feira, 20 de Outubro de 2009

Primeiro dia do fim

Hoje foi o último dia em que sai á rua a cantarolar o teu nome enquanto caminhava distraída nas ruas do passado, o último dia em que desenhei o teu nome no espelho, depois no banho e o último dia em que chamei de meu amor.
Depois de todas as noites de elevação e promessas, manhãs radiantes e tardes divinas, quase roçando a perfeição, dizes-me que afinal faltam os sons às palavras, o tacto aos gestos, o aroma aos cheiros, ao sorriso as gargalhadas e a todos silêncios os suspiros de paixão. Afirmas do alto do teu pedestal que não foi amor mas sim uma enorme ilusão, negas todas as tuas vontades e dizes que apenas eram minhas… Explicas toda a minha irracionalidade como quem ensina, impacientemente, contas de somar a uma criança.
Hoje é o único dia que eu jamais imaginaria no futuro, o dia em que eu finalmente te consigo dizer “não”, sem qualquer receio nem dúvida.
Hoje é o dia em que eu escolho bater a porta do destino em vez de a deixar aberta, para ti, como quem espera a eternidade…
Amanhã vai ser o primeiro dia do fim, o primeiro dia em que eu voltarei a caminhar sem qualquer caminho traçado nem destino certo.
Será apenas o primeiro dia, o primeiro dia sem ti…

sexta-feira, 25 de Setembro de 2009

Sorriso

Se ainda consegues ver um sorriso aberto no meu rosto pálido e cansado, é porque agora sei que a tua vontade de partir é alma gémea da minha, ou seja, não existe. Eu continuo a ser a voz que queres que te embale até adormecer, a pele que te abraça quando chegas a casa exausto de mais uma das tuas intermináveis viagens e a presença, simplesmente a presença, de um serão passado em silêncio em que nos olhamos, descobrimos e lemos. Tu… Tu continuas a ocupar todo o meu lado esquerdo. O lado esquerdo da cama, o lado esquerdo do coração, o lado esquerdo da minha vida.
Finges que não me amas, amuas, fazes cara feia, bates o pé enquanto afirmas que não podemos continuar, que não temos futuro e eu acabo exausta e por te querer demais digo-te adeus, digo-te adeus porque ainda o posso fazer e continuar a amar-te, continuar a querer-te. Guardo as memórias dos nossos dias e da nossa vida e corro para a porta, e tu voltas e tomas-me novamente pela mão, como um menino assustado esperando mais uma vez que eu te diga que és importante. E eu repito-te… Encosto os meus lábios secos e hesitantes ao teu ouvido e segredo-te toda a importância que tens para mim… Fechas os olhos, como quem decora cada uma das palavras e cada tom da minha suave melodia e perguntas-me porquê? Perguntas-me porque escolho nada quando existe a opção de tudo? Porque hoje, quando temos o futuro?
Sabes a minha resposta?: Não preciso do futuro, preciso do hoje, do agora, deste instante e de todos aqueles que passaram sem que tivesses a olhar-me nos olhos… Não preciso de mais nada, porque hoje, porque quando voltas, já tenho tudo.

sábado, 12 de Setembro de 2009

Sabes

Sabes o percebi hoje? As andorinhas já partiram… Chegaram em Junho, deram vida, e partiram novamente. O tempo passou e muita coisa mudou. Eu mudei, tu mudaste… Mudamos.
Sabes que já passaram os três meses das nossas conversas até de manha, os meses das noites quem eu dormia ao teu lado, sem querer e tu, acordavas comigo mesmo sem saber.
Não mudei.
Continuo com o mesmo desejo que tinha no dia em que escolheste partir. Continuo a querer-te aqui, agora e sempre em pequenos pedaços que me sabiam tão bem. Quero-te ao final da tarde, antes de jantar, em jeito de balanço do dia, em que tu me contas os problemas do teu dia e eu as banalidades do meu.
Sabes, acredito que numa destas noites em que a saudade invadir todos os teus poros e o lado esquerdo da tua cama esteja frio demais vais voltar. Vais esquecer que tu não me podes querer e vais simplesmente sentar-te ao meu lado, em silêncio, apenas para te (me) confortar.
Sabes, que mais do que acreditar, desejo. Desejo desesperadamente que chegue esse dia, e que eu consiga finalmente dar-te o último e derradeiro beijo, o beijo para guardar e para não mais desejar.
Se ainda espero por ti, meu amor, é porque sei que ainda ouves a minha voz nos sítios do costume, e ainda é a minha cara que vês quando ouves as músicas que costumavam embalar o nosso amor.
Sabes que temos todo o tempo do mundo?
Olha, sabes que te amo?

segunda-feira, 24 de Agosto de 2009

Esplanada

Sento-me numa daquelas cadeiras de plástico típicas de esplanada, o empregado mostrando toda a sua eficiência, praticamente galopa até à minha mesa e pergunta-me de forma alegre “o que vou desejar”… Tem piada como uma pergunta tão simples consegue criar um conflito enorme na minha cabeça. Ora bem, desejo não estar sozinha nesta mesa, debaixo de um sol tórrido tão característico das finais de tarde quentes de Lisboa, desejo que o meu telefone toque, desejo olhar para a minha mão direita ou até esquerda e ter uma aliança banal que diga que vou ser feliz e amada por um homem até ao último dos meus dias, desejo a realidade, não desejo um conto de fadas.
Fecho os olhos com a visão desta realidade inventada, esta realidade de sonhos e desejos. Lembro-me que o empregado continua especado à espera que eu lhe revele o que “desejo”, peço-lhe um sumo de laranja natural e um café.
Torno a fechar os olhos e mergulho na minha realidade. Na minha realidade tu chegas na tua carrinha de trabalho e estacionas no parque de estacionamento perto da esplanada sem que eu me dê conta, depois irás caminhar até à minha mesa, descontraidamente, distraidamente e com a sabedoria de quem conhece os segredos mais profundos de todo o Universo enquanto fumas um dos teus adorados cigarros, passarás por de trás da minha cadeira e beijarás o alto da minha cabeça enquanto afagas o meu ombro direito. Eu não me vou assustar, afinal estes gestos de carinho são de todo previsíveis, e se esta realidade não fosse inventada, eu sei que precisarias de sentir que sou real e por isso tocar-me-ias sempre. Sentas-te na cadeira em frente à minha e ficas apenas observando-me, lendo-me e desenhando-me, como quem lê um mapa e traça uma rota. Quando tivesses, finalmente, analisado atentamente cada porção de mim, humedecerias os teus lábios e com a tua voz de Frank Sinatra falsificada farias a mesma afirmação de sempre,
Conta-me o melhor do teu dia.
E eu sorriria, sorriria até conseguires ver covinhas nas minhas bochechas, sorriria pela estabilidade, por ti, por aquele momento, por nós, sorriria por todas as batalhas, por todos os poços repletos de piranhas, por todas as ausências e por todas as partidas, sorriria porque no fim apenas uma coisa importaria, nós.
Passaria a mão sob a tua e falaria, falaria até não ter mais palavras, falaríamos…

domingo, 19 de Julho de 2009

A carta

A próxima carta que te vou escrever vai ser em papel branco e com tinta invisível. Vais abrir o envelope, selado com cera cor de vinho e cuidadosamente, retiras a carta, a carta que tem escritas todas as palavras que te quero dizer, a carta que vai revelar a história que te conto em silêncio todos os dias antes de adormecer, a carta que te vai fazer voar para longe, como o vento faz voar um saco de papel, levanta voo e desaparece, para sempre.
Vou encher um copo de água com açúcar, pegar num pincel fino e escrever-te. Sim é isso que vou fazer, até porque para além de falta de opções não acredito na velha máxima “ as mais belas palavras são aquelas que ficam por dizer “. As mais belas palavras são ditas, escritas ou murmuradas todos os dias; são proferidas em cada silêncio, em cada toque e tem cada olhar. Por isso vou escrever-te, vou passar para o papel com uma letra floreada todas as palavras belas que tenho para ti, vou dizer-te que o silêncio é na verdade uma vontade quase incontrolável de falar, a ausência aperta-te o coração como os sapatos dos grandes estilistas me apertam os pés, a saudade é o London Eye, está voltada para a sua alma gémea sem lhe poder tocar e a paixão é um terminal de autocarros e cada um tem o teu nome escrito no destino.
Acende a luz. Precisas de luz para ler as minhas “mais belas palavras”.
Acende um holofote, precisamos mesmo de luz.

sexta-feira, 17 de Julho de 2009

Guerras

Acho que é altura de partir. Quando não podemos ganhar uma guerra nem nenhuma batalha intermédia a melhor opção é baixar as armas, arrumar a tralha e partir. Por a mochila às costas e caminhar firmemente pelo caminho esburacado que é a estrada da vida.
A minha guerra terminou. Estou determinada a pousar as armas, a retirar o colete à prova de balas e virar costas. Desisto, desisto de continuar a lutar numa guerra que nem sequer foi real, recuso-me lutar por uma causa sem fundamento, não vou e nem quero lutar sozinha. Acabou.
Entrego-te o colete à prova de balas, porque de nada me serve. Ofereceste-mo no nosso primeiro encontro com a promessa de que estaria protegida hoje, agora e sempre mas foi apenas mais uma, doce, mentira. Não me protegeu, não me protegeste, pelo contrário… Descobriste os meus pontos fracos e fizeste pontaria certeira sem qualquer dor e atingiste-me.
Soldado ao chão.
E eu que pensava que tinha amarrada à testa a faixa de grupo rebelde e cruel… Olha, sinceramente não sei quem foi o pior. Não sei se fui eu, que pouco dei de banalidades, mas tudo dei em nobreza de sentimentos ou se tu, que fizeste um quadro perfeito do teu ser, mas nunca me mostraste a essência, ou melhor, mostraste uma falsa essência, uma falsa paixão.
Desisto.
Hoje acaba o meu sentimento de culpa. A partir deste momento vou voltar a dormir uma noite inteira sem acordar a pensar que abanei a vida de alguém, vou despertar sem a ilusão de paixão, vou acordar para a vida, vou acordar para ti… Miragem de homem, pela qual eu me apaixonei.
Dor.
Tornei-me imune, transformei-me num boneco estático, inexpressivo e frio.
Vazio.